Camping #8




Um conto de acampamento
                Ouvi Ian batendo a porta lá em baixo e o observei enquanto ele descia as escadas para a rua e passava por Olivia quase esbarrando nela, ela o parou e perguntou o que tinha acontecido. Tudo o que ele fez foi olhar em direção a minha janela e balançar a cabeça, me encarando de um jeito... Ian deu as costas para Olivia, dizendo que estava tudo bem. Nós três sabíamos que não estava nada bem.
Eu tinha me jogado na cama logo em seguida e enterrado minha cara em um urso de pelúcia – pode julgar! – e foi assim que Liv me encontrou ao entrar no quarto.
- Certo – ela começou. – Eu vou querer saber o que aconteceu aqui agora?
- Provavelmente não? – o urso meio que abafava a minha voz e, por isso, ela riu.
- Acho que eu não consegui entender direito. – Liv sentou ao meu lado na cama, me deu um soco nas costas muito carinhoso que me fez rolar de dor e tirou o urso da minha cara. – Repete?
- Eu disse: “eu acho que não” e... Ai!
- Certo, certo. Qual foi o motivo da briga dessa vez? Jogos? Mulheres? Bebidas? – ela fez uma pausa e uma careta, meio incerta do que iria dizer depois e acrescentou, falando lentamente: - Ou será que alguém finalmente resolveu se declarar pra alguém e assumir o que sente?
Foi como se o mundo de repente começasse a correr em slow motion. Como assim “alguém resolveu se declarar pra alguém”? Então ela sabia?
- Ah, qual é, Zac! – ela me cutucou com a pata do urso. – A gente já namora há uns três meses, nada mais justo eu saber o que se passa nessa cabecinha – Liv colocou a mão sobre o meu peito e disse: - e nesse coraçãozinho também.
- Então... – comecei, ainda meio sem saber o que dizer daquilo tudo – Tu não estás com raiva? Ou... nojo, talvez?
- Zac, é claro que não!
- Eu ficaria. Pelo menos com raiva, quero dizer. Afinal, sei lá, a gente ta namorando e aí... Isso!
- Eu não acho que fui usada, se é isso que ta passando na tua cabeça agora. – ela disse. – Na verdade, eu sempre soube que tinha alguma coisa entre vocês dois. Além de uma amizade, quero dizer.
- É. Só que nunca teve coisa nenhuma entre a gente. Bom, pelo menos até umas três semanas atrás, eu acho.
- Umas três semanas? Foi quando ele te beijou, certo?
- Espera – me sentei na cama – Ele não aguentou a culpa e foi conversar contigo também?
- Mais ou menos. – ela respondeu. – Eu não diria “culpa”, mas sim, Ian veio conversar comigo no dia seguinte. E, sinceramente, Zac eu esperava ouvir da tua boca isso. – ela fez uma pausa, me avaliando. – Mas, sabe, não te culpo. Eu também não teria contado.
- Não?
- Não. Pelo menos não até ter certeza dos meus sentimentos.
- Desculpa, Liv. – eu me sentia meio constrangido. Ian havia falado com quantas outras pessoas antes de vir falar comigo? Bem, na verdade acho que eu teria feito o mesmo se pudesse prever a minha própria reação. – Eu deveria ter contado.
- Tudo bem. – ela me abraçou. – Agora, me conta o que aconteceu. Tudo.
- Er... Bem, a gente se conheceu no acampamento de férias, como todo mundo já sabe.  O que ninguém sabe é que eu me apaixonei no momento em que meus olhos encontraram os dele.
- Ah, aquele olhar de ouro! – ela me interrompeu, rindo. – Quem não se derreteria por aqueles olhos meio dourados?
- Acho que eu concordo. – admiti meio sem jeito. – Foi uma sensação muito estranha, mas resolvi ignorar. Era a primeira vez que ele participava do acampamento, então todo mundo queria saber um pouco dele. Foi um longo dia e eu notava que volta e meia ele ficava me olhando durante algumas atividades.
“Ian veio falar comigo já no final do dia. Estávamos preparando as barracas para a noite e ele estava um pouco enrolado com a dele, ofereci ajuda e ele aceitou. Ele agradeceu, apertou a minha mão e com um sorriso disse ‘sou o Ian. Zac, certo?’. Aquele sorriso sempre me deixou meio bobo, assim como olhar naqueles malditos olhos por muito tempo e, bem, foi exatamente o que aconteceu. Fiquei alguns instantes olhando no fundo daqueles olhos, sem dizer nada, provavelmente com a maior cara de idiota porque Ian soltou um risinho e repetiu ‘certo?’ ainda sorrindo e segurando a minha mão. ‘Er... C-certo’, gaguejei sem jeito. Sim, eu sei, sou o maior bocó!
“Daí em diante Ian e eu nos tornamos cada vez mais próximos e quanto mais tempo eu passava com ele, mais tempo eu queria ficar ao lado dele. Nós fazíamos todas as atividades em grupo juntos e, quando não podíamos, era como uma tortura pra mim. Era estranho, afinal, eu só havia sentido essa necessidade de ficar junto antes com a Alice, mas com Ian era diferente. Eu sentia uma coisa diferente, só nunca soube dizer o que era. Alguma coisa fazia meu coração... acelerar sempre que ele sorria pra mim. E isso me deixava inquieto.
“Eu ficava bem mais inquieto quando alguma menina vinha dar em cima dele ou quando me entregavam um bilhetinho pra entregar a ele. Posso dizer agora que o que eu sentia era ciúme, mas na época ainda era bem estranho sentir ciúmes de um amigo, quanto mais admitir isso. Ian já havia dito que tinha uma namorada e que gostava muito dela, mas as garotas do acampamento pareciam um bando de urubus ao redor da ‘carne nova’ e ele também não colaborava, porque sempre jogava charme para todas. Era brincadeira, claro, mas elas sempre me diziam para falar delas para Ian e eu dizia que ‘iria ajudar, é claro’. É claro que não!
“No último dia fomos fazer uma trilha até uma cachoeira que ficava há uns 2km do acampamento, como fazíamos todos os anos e Ian, como era novo no acampamento, ficou todo empolgado. Iríamos passar a noite por lá e no dia seguinte voltaríamos para casa, então levamos todo o equipamento e nossas coisas iriam no ônibus, pela manhã. Saímos bem cedo para poder ‘aproveitar’ o dia. Eu nunca fui muito fã daquela cachoeira, afinal não nado muito bem e, por isso, quando chegamos, fiquei sentado em uma das pedras lendo e vendo o pessoal se divertir. Ian veio todo sorrisos e me disse para eu me juntar ao pessoal, porque a água tava muito boa. Meio relutante, acabei indo.
“A água realmente tava muito boa e nos divertimos a manhã toda, Ian sempre por perto. Tava tudo muito bom, tudo muito legal até que uma das garotas-urubu puxou Ian pelo braço dizendo que queria conversar. Ele foi. Sentaram numa das pedras próximas e não muito tempo depois eles estavam dando o maior beijão. Sabe aquela música da Maysa ‘Meu Mundo Caiu’? Pois é. A partir daí eu já não olhava Ian na cara e passei a tarde toda evitando ele. Sempre que ele vinha com alguma conversa, eu cortava de um jeito nem tão sutil como eu queria que fosse, mas, não sei, simplesmente não consegui controlar a raiva que me subiu quando vi ele no maior amasso com aquelazinha.
- Aquelazinha? – Liv riu. – Nossa, realmente tu deverias tá morrendo de ciúmes dele!
- Pois é... – eu ri também, completamente sem jeito.
“Evitei ele ao máximo, mas, quando começou a escurecer, o instrutor mandou preparar as barracas e lá fomos nós. Ian sempre se enrolava com a barraca dele e eu sempre ajudava. Ele percebeu que eu tava chateado, só não sabia o porquê; então ele pediu ajuda pra meninazinha com quem ele tinha ficada mais cedo. Bom, ela também se enrolou toda e, no fim das contas, Ian veio me pedir ajuda. Eu, claro, sabendo que não tinha motivos para ficar com raiva fui, afinal, quem tinha levado um chifre não havia sido eu.
“Ele me pediu desculpas por ter feito o que fez. Por que? Não sei. Mas era óbvio que eu tinha ficado chateado com ele por causa do beijo e ele com toda a certeza percebeu. Eu disse que não tinha porquê se desculpar e que era impressão dele, que não tava com raiva; ele não insistiu no assunto e ficamos por isso mesmo.
“Estávamos afastados do pessoal que tava ao redor da fogueira, sentados em umas pedras olhando o reflexo da lua na água; uma visão linda, devo dizer. Já tava meio tarde e conversávamos sobre besteiras, até que ele tocou no assunto do beijo de novo. Ian me pediu desculpas mais uma vez, me olhando fundo nos olhos e com uma expressão muito séria. Disse que não tinha sido legal fazer o que fez, que ele não era assim e que esperava não me perder por isso. Não entendi nada de novo e disse ‘desencana! Mas não quero nem ver a cara da tua namorada quando tu contar pra ela’, ele riu e se deitou, olhando pro céu. Eu me deitei ao lado dele e ele virou a cabeça. Ficamos um bom tempo só nos olhando, até que ele se aproximou, me deu um beijo no rosto e disse ‘boa noite, Zac’ e, com um sorriso, levantou e foi pra cabana dele. Ian parou um instante, olhou pra trás, pra mim e, com um sorriso ainda mais largo, balançou a cabeça e continuou andando”.
- Ele te dá um beijo no rosto e só diz boa noite?! – Liv levou uma mão até a boca, com uma expressão engraçada de indignação – Que cretino!
- Concordo plenamente! – eu ri – Bom, foi assim que tudo começou. Depois ele se mudou pra cá, era da mesma sala que a gente, começou a namorar com a Alice e, bem, aquilo tudo que todo mundo já sabe.
- Mas – começou ela –, o que ninguém sabia era que nesse tempo todo, teus sentimentos por ele eram mais fortes do que uma amizade.
- É... – concordei, entortando a boca. – Mas, olha, isso não quer dizer que eu não gostasse... bem, que eu não goste de ti. Tudo o que eu disse, era verdade.
- Eu sei, Zac. Não precisa se desculpar comigo. Eu realmente entendo e acredito em ti. – Liv suspirou – Bom, acho que isso quer dizer que oficialmente terminamos, não é mesmo?