Um conto de acampamento
Ouvi
Ian batendo a porta lá em baixo e o observei enquanto ele descia as escadas
para a rua e passava por Olivia quase esbarrando nela, ela o parou e perguntou
o que tinha acontecido. Tudo o que ele fez foi olhar em direção a minha janela
e balançar a cabeça, me encarando de um jeito... Ian deu as costas para Olivia,
dizendo que estava tudo bem. Nós três sabíamos que não estava nada bem.
Eu tinha me
jogado na cama logo em seguida e enterrado minha cara em um urso de pelúcia –
pode julgar! – e foi assim que Liv me encontrou ao entrar no quarto.
- Certo – ela começou. – Eu vou
querer saber o que aconteceu aqui agora?
- Provavelmente não? – o urso meio
que abafava a minha voz e, por isso, ela riu.
- Acho que eu não consegui entender
direito. – Liv sentou ao meu lado na cama, me deu um soco nas costas muito
carinhoso que me fez rolar de dor e tirou o urso da minha cara. – Repete?
- Eu disse: “eu acho que não” e... Ai!
- Certo, certo. Qual foi o motivo da
briga dessa vez? Jogos? Mulheres? Bebidas? – ela fez uma pausa e uma careta,
meio incerta do que iria dizer depois e acrescentou, falando lentamente: - Ou
será que alguém finalmente resolveu se declarar pra alguém e assumir o que
sente?
Foi como se o mundo de repente
começasse a correr em slow motion.
Como assim “alguém resolveu se declarar pra alguém”? Então ela sabia?
- Ah, qual é, Zac! – ela me cutucou
com a pata do urso. – A gente já namora há uns três meses, nada mais justo eu
saber o que se passa nessa cabecinha – Liv colocou a mão sobre o meu peito e
disse: - e nesse coraçãozinho também.
- Então... – comecei, ainda meio sem
saber o que dizer daquilo tudo – Tu não estás com raiva? Ou... nojo, talvez?
- Zac, é claro que não!
- Eu ficaria. Pelo menos com raiva,
quero dizer. Afinal, sei lá, a gente ta namorando e aí... Isso!
- Eu não acho que fui usada, se é
isso que ta passando na tua cabeça agora. – ela disse. – Na verdade, eu sempre
soube que tinha alguma coisa entre vocês dois. Além de uma amizade, quero
dizer.
- É. Só que nunca teve coisa nenhuma entre a gente. Bom, pelo
menos até umas três semanas atrás, eu acho.
- Umas três semanas? Foi quando ele
te beijou, certo?
- Espera – me sentei na cama – Ele
não aguentou a culpa e foi conversar contigo também?
- Mais ou menos. – ela respondeu. –
Eu não diria “culpa”, mas sim, Ian veio conversar comigo no dia seguinte. E,
sinceramente, Zac eu esperava ouvir da tua boca isso. – ela fez uma pausa, me
avaliando. – Mas, sabe, não te culpo. Eu também não teria contado.
- Não?
- Não. Pelo menos não até ter certeza
dos meus sentimentos.
- Desculpa, Liv. – eu me sentia meio
constrangido. Ian havia falado com quantas outras pessoas antes de vir falar
comigo? Bem, na verdade acho que eu teria feito o mesmo se pudesse prever a
minha própria reação. – Eu deveria ter contado.
- Tudo bem. – ela me abraçou. –
Agora, me conta o que aconteceu. Tudo.
- Er... Bem, a gente se conheceu no
acampamento de férias, como todo mundo já sabe.
O que ninguém sabe é que eu me apaixonei no momento em que meus olhos
encontraram os dele.
- Ah, aquele olhar de ouro! – ela me
interrompeu, rindo. – Quem não se derreteria por aqueles olhos meio dourados?
- Acho que eu concordo. – admiti meio
sem jeito. – Foi uma sensação muito estranha, mas resolvi ignorar. Era a
primeira vez que ele participava do acampamento, então todo mundo queria saber
um pouco dele. Foi um longo dia e eu notava que volta e meia ele ficava me
olhando durante algumas atividades.
“Ian veio falar comigo já no final do
dia. Estávamos preparando as barracas para a noite e ele estava um pouco
enrolado com a dele, ofereci ajuda e ele aceitou. Ele agradeceu, apertou a
minha mão e com um sorriso disse ‘sou o Ian. Zac, certo?’. Aquele sorriso
sempre me deixou meio bobo, assim como olhar naqueles malditos olhos por muito
tempo e, bem, foi exatamente o que aconteceu. Fiquei alguns instantes olhando
no fundo daqueles olhos, sem dizer nada, provavelmente com a maior cara de idiota
porque Ian soltou um risinho e repetiu ‘certo?’ ainda sorrindo e segurando a
minha mão. ‘Er... C-certo’, gaguejei sem jeito. Sim, eu sei, sou o maior bocó!
“Daí em diante Ian e eu nos tornamos
cada vez mais próximos e quanto mais tempo eu passava com ele, mais tempo eu
queria ficar ao lado dele. Nós fazíamos todas as atividades em grupo juntos e,
quando não podíamos, era como uma tortura pra mim. Era estranho, afinal, eu só
havia sentido essa necessidade de ficar junto antes com a Alice, mas com Ian
era diferente. Eu sentia uma coisa
diferente, só nunca soube dizer o que era. Alguma coisa fazia meu coração...
acelerar sempre que ele sorria pra mim. E isso me deixava inquieto.
“Eu ficava bem mais inquieto quando
alguma menina vinha dar em cima dele ou quando me entregavam um bilhetinho pra
entregar a ele. Posso dizer agora que o que eu sentia era ciúme, mas na época
ainda era bem estranho sentir ciúmes de um amigo, quanto mais admitir isso. Ian já havia dito que
tinha uma namorada e que gostava muito dela, mas as garotas do acampamento
pareciam um bando de urubus ao redor da ‘carne nova’ e ele também não
colaborava, porque sempre jogava charme para todas. Era brincadeira, claro, mas
elas sempre me diziam para falar delas para Ian e eu dizia que ‘iria ajudar, é
claro’. É claro que não!
“No último dia fomos fazer uma trilha
até uma cachoeira que ficava há uns 2km do acampamento, como fazíamos todos os
anos e Ian, como era novo no acampamento, ficou todo empolgado. Iríamos passar
a noite por lá e no dia seguinte voltaríamos para casa, então levamos todo o
equipamento e nossas coisas iriam no ônibus, pela manhã. Saímos bem cedo para
poder ‘aproveitar’ o dia. Eu nunca fui muito fã daquela cachoeira, afinal não
nado muito bem e, por isso, quando chegamos, fiquei sentado em uma das pedras
lendo e vendo o pessoal se divertir. Ian veio todo sorrisos e me disse para eu
me juntar ao pessoal, porque a água tava muito boa. Meio relutante, acabei
indo.
“A água realmente tava muito boa e
nos divertimos a manhã toda, Ian sempre por perto. Tava tudo muito bom, tudo
muito legal até que uma das garotas-urubu puxou Ian pelo braço dizendo que
queria conversar. Ele foi. Sentaram numa das pedras próximas e não muito tempo
depois eles estavam dando o maior beijão. Sabe aquela música da Maysa ‘Meu
Mundo Caiu’? Pois é. A partir daí eu já não olhava Ian na cara e passei a tarde
toda evitando ele. Sempre que ele vinha com alguma conversa, eu cortava de um
jeito nem tão sutil como eu queria que fosse, mas, não sei, simplesmente não
consegui controlar a raiva que me subiu quando vi ele no maior amasso com
aquelazinha.
- Aquelazinha? – Liv riu. – Nossa, realmente tu deverias tá morrendo de ciúmes dele!
- Pois é... – eu ri também,
completamente sem jeito.
“Evitei ele ao máximo, mas, quando
começou a escurecer, o instrutor mandou preparar as barracas e lá fomos nós.
Ian sempre se enrolava com a barraca dele e eu sempre ajudava. Ele percebeu que
eu tava chateado, só não sabia o porquê; então ele pediu ajuda pra meninazinha com quem ele tinha ficada mais
cedo. Bom, ela também se enrolou toda e, no fim das contas, Ian veio me pedir
ajuda. Eu, claro, sabendo que não tinha motivos para ficar com raiva fui,
afinal, quem tinha levado um chifre não havia sido eu.
“Ele me pediu desculpas por ter feito
o que fez. Por que? Não sei. Mas era óbvio que eu tinha ficado chateado com ele
por causa do beijo e ele com toda a certeza percebeu. Eu disse que não tinha
porquê se desculpar e que era impressão dele, que não tava com raiva; ele não
insistiu no assunto e ficamos por isso mesmo.
“Estávamos afastados do pessoal que
tava ao redor da fogueira, sentados em umas pedras olhando o reflexo da lua na
água; uma visão linda, devo dizer. Já tava meio tarde e conversávamos sobre
besteiras, até que ele tocou no assunto do beijo de novo. Ian me pediu
desculpas mais uma vez, me olhando fundo nos olhos e com uma expressão muito
séria. Disse que não tinha sido legal fazer o que fez, que ele não era assim e
que esperava não me perder por isso. Não entendi nada de novo e disse ‘desencana!
Mas não quero nem ver a cara da tua namorada quando tu contar pra ela’, ele riu
e se deitou, olhando pro céu. Eu me deitei ao lado dele e ele virou a cabeça. Ficamos
um bom tempo só nos olhando, até que ele se aproximou, me deu um beijo no rosto
e disse ‘boa noite, Zac’ e, com um sorriso, levantou e foi pra cabana dele. Ian
parou um instante, olhou pra trás, pra mim e, com um sorriso ainda mais largo,
balançou a cabeça e continuou andando”.
- Ele te dá um beijo no rosto e só diz boa noite?! – Liv levou uma mão até a boca, com uma expressão
engraçada de indignação – Que cretino!
- Concordo plenamente! – eu ri – Bom,
foi assim que tudo começou. Depois ele se mudou pra cá, era da mesma sala que a
gente, começou a namorar com a Alice e, bem, aquilo tudo que todo mundo já
sabe.
- Mas – começou ela –, o que ninguém
sabia era que nesse tempo todo, teus sentimentos por ele eram mais fortes do
que uma amizade.
- É... – concordei, entortando a
boca. – Mas, olha, isso não quer dizer que eu não gostasse... bem, que eu não goste de ti. Tudo o que eu disse, era
verdade.
- Eu sei, Zac. Não precisa se
desculpar comigo. Eu realmente
entendo e acredito em ti. – Liv suspirou – Bom, acho que isso quer dizer que
oficialmente terminamos, não é mesmo?
