O beijo
E então, aquele foi um fim de semana
cheio. Bem, a verdade é que a minha cabeça andava cheia e a semana foi
complicada.
Por algum motivo, Ian me evitou a
semana toda e até Alice percebeu, chegando a comentar comigo que ele tava mesmo
estranho. Olivia e eu nos aproximamos mais naquela semana seguinte ao plano da
Alice de jogar ela pra cima de mim.
Pois é, ao que tudo indicava, tinha
dado certo.
Uma semana depois estávamos os quatro
de novo num dos bancos da pracinha em frente à escola (infelizmente, como já
deve ter dado pra perceber, aquele era o único lugar melhorzinho pra encontrar
a galera). Ian ainda tava estranho comigo, mas ao menos tentou disfarçar
enquanto as meninas estavam com a gente. Volta e meia ele me olhava, mas quando
eu olhava de volta ele desviava o olhar e vice-e-versa.
- Ian, vem comigo aqui rapidinho? –
chamei, queria saber o que tava acontecendo.
- Zac, mas e as meninas?
- Elas podem conversar enquanto eu converso contigo.
- Vai lá, amor – disse Alice.
- É – concordou Olivia. – Vocês
aproveitam e trazem um sorvete pra nós duas na volta.
Eu sorri para Olivia.
- Céu
azul? – perguntei, ainda sorrindo.
- Claro que sim. – ela respondeu e me
mandou um beijinho.
- Tudo bem, meu anjo – disse a ela.
Me virei para Ian e o puxei pelo braço dizendo: - Vem comigo.
Arrastei Ian pelo braço até o mais
longe que ele me permitiu e então paramos próximos de umas árvores, quase do
outro lado da praça.
- Certo – eu disse, cruzando os
braços e fechando ainda mais a cara. – Posso saber o que é que tá acontecendo
contigo!?
- Nada, por que? – ele respondeu se
recostando numa árvore perto dele da forma mais sínica e irritante que ele
podia fazer.
- Como nada? Então eu to sendo
evitado por nada?
- Eu não to te evitando, Zac. – ele
respondeu, soando cansado.
- Claro que tá! Tentei diversas vezes
essa semana ter um tempinho contigo e tu só fez me afastar. E mesmo que tu
estejas disfarçando muito bem na frente das meninas, eu sei que tem alguma
coisa errada. Até a Alice percebeu.
Ele soltou um riso seco e olhou pro
céu.
- Olha, Zac, eu to legal e não tem
nada estranho ou errado comigo. Agora que já tirei todas as tuas duvidas, a
gente pode ir? As meninas querem sorvete, tipo céu azul.
- Que se foda o sorvete! – exclamei e
depois algo estalou na minha cabeça. – Espera... então é isso, não é? A Olivia,
tem alguma coisa com ela...?
- Não tem nada a ver com a Olivia,
Zac. Não viaja. Vamo?
Ele se afastou da árvore e saiu andando,
mas, assim que ele passou por mim eu o puxei pelo braço. Ian travou na hora.
- Me solta, Zac. – ele falou
entredentes, a respiração ficando pesada de repente.
- Viu como tem coisa estranha aí? Eu
não posso nem te tocar que tu... sei lá, fica assim.
Ele ficou calado.
- Olha, Ian... – continuei – se é por
causa daquele dia lá na frente de casa, eu...
- Não tem nada a ver com aquele dia
lá. – ele respondeu, seco. Depois acrescentou pausadamente: – Agora me solta.
- Não solto! Até tu me contar que
bicho te mordeu!
Ele me olhou no fundo dos olhos e
então me puxou pra perto. O puxão foi tão forte que acabei soltando o braço
dele, pra me defender ou sei lá. Suas duas mãos seguraram meu rosto e, de
repente, seus lábios estavam nos meus.
Foi um tipo de selinho, mas foi forte
e intenso. Eu diria até que naquela intensidade toda havia uma certa raiva
embutida. Não tive tempo nem de reagir ou sequer pensar em reagir porque logo
ele afastou os lábios dos meus e saiu andando com as mãos nos bolsos.
Quando voltei pro local onde
estávamos, Ian e Alice já tinham ido e Olivia estava sozinha me esperando.
- Os dois já foram – ela disse. –
Tudo bem, Zac? – perguntou, confusa, tirando uma mecha de cabelo ruivo do rosto.
- Er... – minha cabeça estava em
outro lugar, em outro momento. – T-tudo. Trouxe o sorvete.
Ela sorriu e me beijou.
- Tudo ótimo. – acrescentei.
