Olivia
Um belo dia estávamos os três, Alice,
Ian e eu sentados no banco da pracinha em frente à escola numa noite de sábado,
tomando sorvete quando o clima ficou um pouco estranho entre Ian e eu.
Alice tinha convidado uma amiga nossa
de turma para ficar ali com a gente naquela noite. Na verdade ela queria jogar
essa nossa colega pra cima de mim. Era a Olivia.
Olivia era uma garota legal. Pouca
coisa mais baixa que eu – obrigado Deus! -, cabelos castanhos ondulados e
cortados na altura da nuca, olhos também castanhos e um sorriso encantador. Tínhamos
o mesmo gosto pra quase tudo: no quesito filmes, ela preferia animações a
qualquer outro tipo; no quesito músicas, ela curtia minhas bandas favoritas;
ela curtia anime e mangá, os mesmos que eu; HQs, games, enfim, ela era muito
legal.
Ian e Alice estavam se pegando,
claro.
- Então, er... – comecei (pelo menos
não usei o “ei” no começo, é um progresso) – Quer sair daqui?
- Por favor, agora. – ela me
respondeu.
Saímos de lá praticamente invisíveis
aos olhos dos dois. Praticamente não, completamente.
- Pra onde? – perguntei a ela quando
estávamos longe do casal.
- Não sei... – ela hesitou e depois
disse: – Na verdade eu to um pouco cansada, teria algum problema ir me deixar
em casa?
- Claro que não – respondi. – É só me
guiar. – fechei os olhos e estendi os braços.
Ela riu e segurou uma das minhas
mãos.
A casa de Olivia era bem longe,
tivemos inclusive que pegar um ônibus, mas, apesar da distância, eu curti
bastante o tempo que passei com ela. Ela era mais que uma “pessoa legal”, ela
era ótima!
Conversamos sobre tudo: música,
filmes, séries, desenhos, HQs, livros, relacionamentos, sobre como estávamos
gostando da companhia um do outro e sobre o “casal mais perfeito de todo o
colégio”.
Bem, foi Olivia quem usou esse termo,
afinal, eu discordava plenamente disso. Eu via que Ian e Alice se gostavam como
eles demonstravam, assim como todo mundo, mas eu também via que eles não eram
nem de longe um casal perfeito.
Quando chegamos na casa dela, Olivia
e eu ainda conversamos por uns 10 ou 20 minutos e depois nos despedimos.
- Adorei ter passado a noite contigo,
Zac. – ela falou e me deu um selinho de despedida. Fiquei sem reação. – Até
segunda.
- A-até – respondi, ainda sem reação.
Como já estava tarde, quando voltei
fui direto pra casa, afinal, os dois provavelmente não estariam mais na praça.
E eis que quando chego em casa tenho uma surpresa.
- Ei, er... – droga! Isso de novo. –
O que cê tá fazendo aí?
- Fiquei preocupado e resolvi te
esperar chegar, depois que deixei a Alice em casa. – Ian me respondeu. Ele
estava sentado num dos degraus da escada que dá acesso à minha casa. – Aonde
vocês foram?
- Ahn... Fui levar Olivia em casa –
respondi, me sentando ao lado dele. – Mas... ficou preocupado por quê?
- Não sei. – ele respondeu e
acrescentou com um pouco de rispidez: – Talvez
porque tu sumiste por horas e sequer
se preocupou em ligar ou mandar uma mensagem dizendo que tava bem!
- Ei, cara, calma aí. Eu to bem, como
dá pra ver. Não precisa toda essa grosseria.
- Eu
não to... – ele respirou fundo. – Ok, desculpa. É só que eu fiquei
preocupado contigo.
Preocupado? Comigo? Fiquei meio que sem saber o que pensar sobre, afinal, ele tava com
Alice, a namorada dele e eu, de vela. Não tinha porquê para aquilo.
- Foi mal. – eu disse, sem jeito. – É
só que Olivia e eu... Bem, a gente meio que cansou de ficar de vela e, como
tava tarde, ela me pediu pra levá-la em casa. Nada demais.
Ele me olhou por um tempo sem dizer
nada e... sinceramente? Aquilo tava me deixando constrangido. Até que enfim ele
resolveu falar.
- Ok, mas... e aí?
- “E aí” o que?
- Ah, Zac a Olivia mora bem longe. Vocês devem ter conversado e
tudo. – ele deu uma breve e visível hesitada e continuou: - Bom, como foi?
- Er... foi legal. A gente conversou
e tudo. E ela me beijou.
- Ela te beijou... – ele repetiu,
mais pra si mesmo que pra mim. – Espera. Ela o que?!
- Ei, ei, ei! Calma aí, Ian. O que
foi, cara?
- Nada.
Por que?
- Sabe, o tom de voz “vou arrancar
tua cabeça, repete!” – dei uma risadinha no final pra tentar amenizar a tensão
que de repente crescia ali de novo.
Ele soltou um riso meio sem jeito.
Sério, que bug foi esse?
- Desculpa. De novo. – ele respondeu
e olhou pra longe, falando bem rápido em seguida acrescentou: – Olha, desculpa
mesmo. Agora que eu sei que ta tudo bem, já vou. – ele me olhou diretamente nos
olhos. Acho que era a primeira vez em meses que ele fazia isso. Mas logo Ian
desviou o olhar novamente. – Boa noite, Zac. – ele disse por fim.
- Ian - o puxei pela mão, como no dia
em que descobri que éramos da mesma turma. – tá tudo bem? Vocês não brigaram de
novo, brigaram?
- T-tu-tudo – ele gaguejou olhando
para nossas mãos. Eu não havia soltado a mão dele ainda. – Tudo bem entre Alice
e eu.
- Certo – falei me levantando e
olhando fundo naqueles olhos agora castanhos com a pouca luz para refletir . -, mas e contigo? Tudo bem?
Primeiro, seus olhos estavam focados
nos meus, depois eles desceram, ele mordeu o lábio inferior, apertando forte
minha mão e respirou fundo. A tensão crescia ali e eu sentia que algo estava
prestes a explodir. Porém, de repente, ele soltou minha mão, me deu um abraço
apertado e disse:
- Bons sonhos, Zac.
E saiu andando rumo a casa dele.
